
Depois de viver por cerca de dez anos em um relacionamento marcado por agressĂ”es, ameaças e episĂłdios frequentes de violĂȘncia dentro de casa, Joana, nome fictĂcio utilizado para preservar sua identidade, conseguiu mudar o rumo da prĂłpria histĂłria. Aos 39 anos, ela encontrou apoio na Casa da Mulher Brasileira, em CeilĂąndia, equipamento pĂșblico que reĂșne atendimento psicolĂłgico, orientação jurĂdica e cursos de capacitação para mulheres em situação de violĂȘncia.
“Durante muito tempo eu vivi com medo e tristeza. Foram anos de brigas, agressĂ”es e ameaças. Quando cheguei Ă Casa da Mulher Brasileira, comecei a enxergar uma possibilidade de recomeço”, conta.
A história de Joana reflete a realidade de muitas mulheres que procuram o serviço mantido pelo Governo do Distrito Federal (GDF). Desde a reabertura da unidade, em 2021, jå foram realizados mais de 40 mil atendimentos, alcançando 10.933 mulheres que buscaram acolhimento, orientação e acesso à rede de proteção.
Joana chegou Ă Casa da Mulher Brasileira em 2022, apĂłs ser encaminhada pela Delegacia Especializada de Atendimento Ă Mulher (Deam), da PolĂcia Civil do Distrito Federal. Um vizinho havia denunciado uma das agressĂ”es que ela sofreu dentro de casa.
No primeiro contato com a equipe da unidade, começou a receber acompanhamento psicolĂłgico e orientação sobre os caminhos disponĂveis para romper o ciclo de violĂȘncia. TambĂ©m teve acesso a cursos profissionalizantes oferecidos no local.
Foi nesse momento que descobriu uma nova possibilidade de trabalho. Inicialmente matriculada em um curso de cabeleireira, decidiu seguir na ĂĄrea de estĂ©tica e ampliar a formação. “Eu fui aprendendo e descobri que gostava muito dessa ĂĄrea. Fiz tambĂ©m cursos de design de sobrancelhas e alongamento de unhas. Hoje consigo trabalhar e sustentar minha casa”, afirma.
Para ela, conquistar autonomia financeira foi decisivo para deixar o relacionamento abusivo. “Quando começamos a namorar, ele pediu para que eu parasse de trabalhar. Eu fiquei dependente, e isso me deixou muito vulnerĂĄvel. Voltar a ter renda prĂłpria mudou completamente a minha vida”, relata.
AlĂ©m da qualificação profissional, Joana participou de sessĂ”es de acompanhamento psicolĂłgico. O atendimento foi fundamental para que ela reconhecesse comportamentos abusivos que, atĂ© entĂŁo, nĂŁo identificava como violĂȘncia.
“Eu nĂŁo entendia que aquilo tudo era violĂȘncia. Ele me ofendia, me afastou da minha famĂlia e me agredia. Eu sentia culpa e tinha medo de procurar ajuda. LĂĄ fui ouvida e acolhida”, diz.
Com o apoio da equipe da Casa da Mulher Brasileira, ela tambĂ©m recebeu orientação jurĂdica e conseguiu garantir direitos importantes. Com assistĂȘncia da Defensoria PĂșblica do Distrito Federal, entrou com o pedido de pensĂŁo alimentĂcia para os trĂȘs filhos e obteve medidas protetivas contra o agressor.
Joana tambĂ©m passou a contar com o acompanhamento do Programa de Policiamento de Prevenção Orientado Ă ViolĂȘncia DomĂ©stica (Provid), realizado pela PolĂcia Militar do Distrito Federal.
AlĂ©m disso, recebeu orientação para acessar benefĂcios sociais e atualmente Ă© contemplada com os cartĂ”es Creche, Material Escolar e Uniforme.
De acordo com Selma de Melo, assessora especial da Subsecretaria de Promoção da Mulher, histĂłrias semelhantes Ă de Joana fazem parte da rotina de atendimento da unidade. “Muitas mulheres chegam fragilizadas e com medo. Com o acompanhamento e as oportunidades oferecidas aqui, elas passam a acreditar novamente que podem reconstruir suas vidas”, afirma.
A Casa da Mulher Brasileira funciona 24 horas por dia e concentra diferentes serviços da rede de proteção em um Ășnico espaço. No local, as mulheres encontram acolhimento, atendimento psicossocial, orientação jurĂdica, apoio policial e cursos de capacitação, alĂ©m de encaminhamento para outros programas de assistĂȘncia.
Segundo a secretĂĄria da Mulher do Distrito Federal, Giselle Ferreira, o equipamento Ă© um dos principais instrumentos das polĂticas pĂșblicas voltadas ao enfrentamento da violĂȘncia contra a mulher. “A Casa da Mulher Brasileira reĂșne toda a rede de proteção em um Ășnico lugar. Ali, a mulher encontra acolhimento, orientação e os caminhos necessĂĄrios para sair de uma situação de violĂȘncia”, explica.
Ela destaca que o atendimento nĂŁo se restringe apenas Ă s mulheres que desejam registrar ocorrĂȘncia policial. “Muitas procuram a casa primeiro para conversar, entender seus direitos e buscar orientação. Ă um espaço aberto tanto para quem precisa de proteção imediata quanto para quem quer se fortalecer e encontrar novos caminhos”, afirma.
Nos Ășltimos anos, a procura pelos serviços da Casa da Mulher Brasileira cresceu de forma significativa. Entre 2022 e 2024, a unidade registrava pouco mais de mil atendimentos por ano. Em 2025, esse nĂșmero subiu para 6.265 mulheres atendidas, totalizando 13.009 atendimentos realizados.
De acordo com a Secretaria da Mulher, o aumento estå relacionado à ampliação das açÔes de divulgação e aos atendimentos itinerantes em diferentes regiÔes administrativas, além de projetos voltados à autonomia financeira e ao fortalecimento da autoestima das mulheres.
AlĂ©m da unidade de CeilĂąndia, o Distrito Federal tambĂ©m conta com Centros de ReferĂȘncia da Mulher Brasileira (CRMB), que oferecem acolhimento psicossocial e cursos de capacitação. As unidades funcionam no Recanto das Emas, Sol Nascente/PĂŽr do Sol, SĂŁo SebastiĂŁo e Sobradinho II.
O Governo do Distrito Federal tambĂ©m assinou contrato para a construção de uma nova Casa da Mulher Brasileira Tipo I, que serĂĄ implantada na Asa Sul, ampliando a rede de atendimento Ă s mulheres em situação de violĂȘncia na capital.
Casos de violĂȘncia contra a mulher podem ser denunciados pelos canais 190 (PolĂcia Militar), 197 (PolĂcia Civil), 180 (Central de Atendimento Ă Mulher) e 156, opção 6, da Central do GDF, alĂ©m da plataforma Maria da Penha Online. As denĂșncias podem ser feitas pela prĂłpria vĂtima ou por qualquer pessoa que presencie situaçÔes de violĂȘncia.
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