
O Carnaval sempre foi visto como uma das datas mais aguardadas do calendário brasileiro. Nas redes sociais, contudo, um novo comportamento vem ganhando força e mudando a forma como parte do público enxerga a tradicional festa. Cada vez mais pessoas têm escolhido ficar fora da folia. E não é por falta de opção.
O movimento, que aparece com mais força entre jovens da Geração Z, é conhecido como JOMO (sigla para Joy of Missing Out, em inglês), que significa “alegria de ficar de fora”. Ele é o contraponto do conhecido FOMO, o medo de estar perdendo algo importante.
Enquanto o FOMO está ligado à ansiedade de não participar de algum evento, como o Carnaval, o JOMO segue o caminho inverso. Em vez de preocupação, surge um sentimento de alívio. Em alguns casos, até de satisfação por não precisar acompanhar o ritmo coletivo e por poder viver o feriado de forma mais tranquila.
Apesar de aparentar ser um comportamento mais restrito às redes sociais, especialmente entre os jovens, Bianca Dramali, professora de marketing e comportamento do consumidor da ESPM, avalia que essa escolha não deve ser encarada como uma moda passageira, como acontece com trends virais.
Para ela, o JOMO deixou de ser apenas um conceito da internet e passou a se refletir em decisões reais, principalmente em datas marcadas por uma espécie de pressão social, como o Carnaval.
“Esse comportamento emergente estava por aí há um tempo. Hoje fica mais evidente e visível porque atingiu ao que chamamos de maioria inicial, uma parte significativa do mainstream”, pontuou.
A mudança de comportamento também aparece em números. Uma pesquisa da AtlasIntel, divulgada no dia 9 de fevereiro, aponta que 47,2% dos brasileiros pretendem ficar em casa durante o Carnaval, sem participar de blocos, festas ou eventos.
Entre os jovens da chamada Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010), o afastamento da folia é ainda mais expressivo. 47,8% desse grupo afirmam não se identificar com o período por falta de conexão cultural com a festa.
Entre os principais motivos citados estão a aversão à música e à multidão (42,8%) e a sensação de não ter relação com o Carnaval como tradição (41,3%).
Mais do que rejeitar a festa, o comportamento revela uma mudança de mentalidade: para muitos, a escolha de não participar também pode ser uma forma de viver o feriado com mais autonomia. Na visão da professora, esse movimento tem relação direta com o desejo de controlar melhor o próprio tempo e a própria energia.
Impacto das redes sociais nas escolhas
Outro fator que ajuda a explicar o crescimento do JOMO é o desgaste provocado pelo excesso de estímulos. Para parte do público, o Carnaval passou a se misturar com a pressão das redes sociais: registrar tudo, aparecer o tempo todo e mostrar felicidade constante virou parte do pacote.

Segundo a especialista, quem adota essa mentalidade passa também a enxergar as redes sociais de outra forma.
“Quem já adotou essa mentalidade JOMO está resgatando o verdadeiro sentido das redes sociais: um espaço de relacionamento, influência e conversas com pessoas que tenham interesses em comum. Rede social é um conceito que precede as redes sociais digitais”, explica.
A especialista reforça ainda que existe um comportamento de transição entre o FOMO e o JOMO, conhecido como FOBO (Fear of Better Option), que é o medo de abrir mão de uma opção melhor.
“É aquela sensação de que não quero mais deixar o hiperestímulo me comandar, a ansiedade me governar com tantas opções. Mas ainda não consigo dizer que estou bem com a sensação de perder algo deliberadamente por escolha própria”, afirma.
Nesse cenário, o Carnaval deixa de ser obrigação e passa a ser apenas mais uma escolha possível. Para muitos jovens, o verdadeiro luxo agora é poder dizer “não” sem culpa e encontrar satisfação no descanso e na liberdade de não participar.
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